*Entrevista dada ao jornalista Ricardo Valladares, revista Veja/Brasil,
e não publicada
Para seu uso dirigir-se a <Ricardo.Valladares@abril.com.br>

1.A eleição do Cardeal Ratzinger a Papa Bento XVI será um atrazo para a Igreja Católica?
R/ De Bento XVI continuar o Cardeal Ratzinger será um grande atrazo. Em mais de vinte anos à frente da Congregação para a Doutrina da Fé e como braço direito de João Paulo II ajudou a configurar a imagem de uma Igreja conservadora, mais próxima dos palácios dos Césares do que da barca de São Pedro. Inundou a Igreja com uma torrente de documentos que instilam seu pessimismo cultural e sua defensiva contra tudo o que vem do mundo contemporâneo. Controlou severamente a produção teológica, punindo 140 teólogos do mundo inteiro, um deles (não vou revelar o nome) de forma tão pesada que foi tomado de idéias de desespero e suicídio. Outro achou que o tribunal nazista que conheceu era mais suave que o tribunal da Congregação para a Doutrina da Fé. Eu mesmo tive que sentar na cadeirinha de Galileo Galilei e Giordano Bruno. Se estivessemos no século XVI estaria queimado a esta altura. Mudaram os métodos, pois não se tortura mais os corpos, mas a mentalidade continua a mesam, torturando as mentes, fazendo vítimas e mediocrizando a inteligência cristã. O que mais surgiu neste estilo de Igreja foram movimentos conservadores e até reacionários como os Legionários de Cristo, Opus Dei, Communione e Liberazione e outros e uma multidão de papalistas infantis e aduladores entre fiéis, religiosos e bispos. Esse modelo de Igreja não tem grandeza nem está à altura dos desafios que a fé cristã deveria assumir face aos graves problemas da humanidade sofredora. Se continuar assim a Igreja Católica do Ocidente se tornará mais e mais um acidente, não obstante as multidões que acorriam para ver o superstar mediático João Paulo II.

2.O Sr. terá dificuldade de amar este Papa?
R/ Como cristão assumo o amor incondicional até para com os que me perseguiram e perseguem, a mim, a Frei Betto, a Dom Marcelo Barros, a Dom Pedro Casaldaliga e a outros. Mas se pensarmos no amor como afetividade e cordialidade confesso que é difícil amar a alguém que rebaixou as mulheres, impedindo até a discussão sobre o possível sacerdócio delas, que difamou os homosexuais, que pregou uma moral sexual cruel e sem piedade especialmente contra o uso de contraceptivos, mesmo na Afria com altissimo grau de portadores de HIV, que proibiiu a comunhão a divorciados, que incentivou a delação de sacerdotes que não seguem estritamente o rito canônico da Eucaristia e por ai vai. Como amar alguém com tais negatividades? Mas o respeitamos e acolhemos porque somos cristãos e humanos e faremos esforço de amar a quem se comporta de forma não amável.

3. O Sr. acredita então na consolidação do radicalismo?
R/ Na verdade para sermos justos com o novo Papa não poderemos dizer nada de consistente, pois ele ainda não teve tempo para proclamar sua plataforma e o perfil de Igreja que quer construir. Mas se tormarmos como referência sua história anterior e a homilia que fez como Cardeal aos Cardeais antes de entrarem em Conclave, podemos dizer que vai radicalizar a linha conservadora de João Paulo II. Quer dizer, para ele, o problema é manter a doutrina pura e defender os cristãos contra os erros e ameaças da modernidade e pós-modernidade. Para essa última não há diálogo, apenas condenação sob a rubrica geral de “ditadura do relativismo”. A homilia na missa já como Papa melhorou um pouco a perspectiva, pois ai alguma coisa do mundo entrou. Mas o acento é a Igreja. Para ele não é um desafio fundamental para a fé saber que há bilhões passando fome, que a globalização está bifurcando a familia humana entre os poucos paises ricos e os muitos pobres, que pesa sobre a biosfera uma ameaça aterradora e que podemos destruir o projeto planetário humano. As paredes do Vaticano são grossas demais para que o grito da Terra e o clamor dos pobres possam ser ouvidos. Sempre foi um acadêmico alemão e um burocrata da Cúria do Vaticano. Que sabe ele do cheio pestilento das valas onde brincam crianças nas favelas da Baixada Fluminense ou das vilas misérias dos 150 milhões de dalits da India (*os intocáveis”, muitos deles cristãos). Tudo isso está apenas nos papéis que recebe para ler mas jamais foi uma experiência de pele que o faria mudar e ter misericórida e compaxão. Se continuar a mesma cabeça, vai haver sim radicalização do mesmo modelo anterior.

4. O Cardeal Ratzinger condenou a teologia da libertação. O Sr. que reforçará esta condenação?
R/ A teologia da libertação que condenou nunca foi a teologia da libertação realmente existente. Ela existia na cabeça de nossos detratores e dos informantes da CIA que repassavam para o Vaticano todas as informações sobre ela, especialmente, da América Central, fazendo crer que era um simples cavalo de Troia para a penetração do marxismo que Ratzinger sempre detestou, como bom alemão. Com os dois documentos que elaborou em 1984 negativo e 1986 um pouco positivo, deverá julgar como coisa já resolvida. Se surgirem novos problemas aplicará as diretrizes destes documentos e enquadrará bispos e teólogos. Mas cabe dizer pelo que se viu no Forum Mundial da Teologia da Libertação feito uma semana antes do Forum Social Mundial em Porto Alegre em janeiro deste ano de 2005, onde estavam mais de 200 representantes vindos de todos os continentes, esta teologia está muito viva. Ela nasceu ouvindo o grito do oprimido que hoje aumentou no mundo inteiro e virou clamor. Mas temos uma afirmação importante de João Paulo II em 1991 em carta enviada à CNBB, dando-se conta da perversidade que o capitalismo trouxe à Polônia (que chegou a aprovar o aborto legal): “A teologia da libertação não é só util mas necessária” na construção da justiça social.

5.O Sr.acha que o novo Papa vai reafirmar a doutrina expressa no documento Dominus Jesus de 2000 onde estabelece a doutrina da Igreja com referência a Cristo e ao diálogo com as igrejas e religiões?
R/ Dias antes de ser eleito Papa, numa entrevista a um jornalista credenciado no Vaticano, o Cardeal Ratzinger afirmou que não retiraria nenhuma palavra do que havia escrito na Dominus Jesus, apesar das criticas que vieram de todos os lados. Eu considero este documento um flagelo para a fé cristã e sua aplicação fará o Vaticano o exterminador do futuro do ecumenismo. Precisamos superar a hipocrisia da retórica comum nos discuros oficiais do Vaticano. Ai se fala que querem o diálogo com as religiões e as Igrejas. Mas nisso vai uma falácia. Que diálogo pode haver com as religiões, pois isso está literalmente escrito na Dominus Jesus, quando se afirma que a única religião verdadeira é a Igreja Católica Romana, embora as religiões tenham valores espirituais e eticos mas que seus professantes correm risco de perdição porque estão fora da Igreja? Que diálogo pode haver com as Igrejas se logo lhes faço saber que elas não são propriamente Igrejas pois posseum apenas elementos eclesiais que foram tirados da única verdadeira Igreja que é a Romano-Católica? Esta posição revela a tradicional arrogância da Igreja Católica e sua mentalidade ainda de cristandade segundo a qual for a da Igreja não há salvação. E o que é pior, nisso tudo há um erro teológico, pois a fé afima que o Verbo ilumina cada pessoa que vem a este mundo e não apenas os católicos batizados e o Espírito enche a face da Terra e move os corações de todas as pessoas na direção do bem, da verdade e do amor, expressões da verdadeira religiosidade. Se não partirmos desta base comum, da obra de Deus na história de seus filhos e filhas, não faz nenhum sentido a busca do diálogo. O que reinará na Igreja será o fundamentalismo que revela sempre espírito de seita e decadência espiritual.

6. Como o Sr. interpreta as condenações do Cardeal Ratzinger na sua homilia aos Cardeais das tendências modernas da cultura, segundo ele, dominadas pela “ditadura do relativismo”?
R/
Eu considero uma atitude de quem tem pouca fé e se vé tomado pelo medo. Para a Biblia o que se opõe à fé não é o ateismo mas o medo e a falta de coragem. Então o Cardeal precisa ter mais fé. Ele teme o pensamento moderno porque este obrigaria a Igreja a fazer profundas modificações, especialmente na sua estrutura, calcada sobre a cultura monárquica, das cortes, dos palácios, dos príncipes,dos purpurados com suas respectivas etiquetas cortesãs. Elas ficam bem para o carnaval carioca mas não para quem se diz representante do pobre Nazareno, o carpinteiro, e do Apóstolo Pedro, simples pescador feito pedra sobre a qual se constroi a Igreja. A Igreja teme a democracia e as liberdades modernas. Ela não teme o cristão pobre e ignorante. Teme o cristão critico e que pensa suas fe e se dá conta da contradição do Jesus dos evangelhos, simples e pobre, amigo de pecadores a quem oferecia reconciliação, que os cristãos encontram nos evangelhos e os Cardeais em Roma, todos de vermelho, perambulando pelos palácios apostólicos,em basilicas imensas e ricas....Dificilmente reconhecem Jesus ai. Se ele tentasse entrar seria escorraçado. Tudo isso faz temer o contacto com a razão moderna e critica. Ela ajudaria a Igreja a ser mais verdadeira e evangélica. Mas obrigaria os homens do Vaticano mudar, converter-se, o que não querem. Por isso é facil condenar indiscriminadamente a modernidade e pós-modernidade. Mas há ainda um equivoco teológico grave.. Sempre se ensinou especialmente no Concilio Vaticano II que em contacto com as filosofias e culturas do mundo, o primeiro a se fazer é buscar os elementos positivos e de luz que ai existem. Eles vem de Buda, de Marx, de Dalai Lama, de Nietsche ou de Boaventura de Souza Santos, Mas se há algo de verdade neles é sinal que em ultimo termo vem de Deus. Dizer que eles so pensaram erros e mentiras significa blasfemar o Verbo e ofender o Espírito Santo cuja iluminação atinge a todos. A partir desta abertura inicial, é possivel um dialogo fecundo que enriquece os interlocutores.

7. Como foi sua relação pessoal com o Cardeal Ratzinger?
R/
Minha relaçao primeira foi de gratidão. Como jovem teólogo recem formado em Munique tinha dificuldade em publicar minha tese de 600 páginas. Ela a leu e se mostrou tão entusiasmado que por sua conta procurou uma editora e me deu um montante considerável de dinheiro para facilitar sua publicação, coisa que agradeco no prefácio do livro. Era sobre como a Igreja pode ser sinal e instrumento do divino no mundo moderno, especialmente, em épocas de revolução.Isso foi em 1968-1969. Ai ficamos amigos e nos trocávamos tudo o que escrevíamos. Outra vez quando estava na fila para cumprimentar João Paulo II em Roma, ele me viu me tirou da fila e me apresentou pessoalmente ao Papa com palavras elogiosas. Da última vez que nos vimos foi numa situação totalmente mudada. Ele como meu Interrogador e eu como inquirido acerca das teses de meu livro Igreja: carisma e poder onde tentava aplicar as intuições da teologia da libertação para as relações interna da Igreja. A Igreja so terá credibilidade no processo de libertação social, quando ela mesma se tornar um espaço de liberdade. Interrogou-me com suavidade mas me castigou com severidade. Submeteu-me a um tempo de “silêncio obsequioso”,quer dizer penitencial, me depos da cátedra e me impediu de escrever e de publicar. Depois o Papa, comovido, me libertou. De vez em quando me ataca em seus pronunciamentos no ponto em que temos divergência fundamental, sobre onde está a verdadeira Igreja de Cristo. Ele afirma que está so na Igreja Catolica e eu afirmo, baseado no Concilio, que está em todas as Igrejas cristãs, com densidades dieferentes e que todas, em comunhão entre si, formam a Igreja de Cristo. Isso eu afirmava na tese que ele apoiou e fez publicar. Mas mudou. E diz que minha posição se tornou comum na comunidade teológica e por isso deve ser combatida duramente.