| *Entrevista dada a Paula Gobbi, jornalista do Los
Angeles Times
<gobbi@gbl.com.br>
1) Quando o Sr. conheceu Joseph Ratzinger? Tenho entendido que
ele foi seu supervisor de disertaçao de Douturado. Isso e correto.
Como era sua relaçao entao? Poderia descrivirlo? (era severo, amigavel,
exigente?)
R/Eu conheci Joseph Ratzinger na Alemanha como professor e grande
conferencista nos fins dos anos 60 do século passado, teólogo
que fazia críticas ao centralismo romano e que pedia mais liberdade
para a teologia poder dialogar sem constrangimentos com as tendências
da cultura contemporânea. Depois, quando terminei minha tese doutoral
foi ele que a leu e se entusiasmou tanto que achou uma editora para publicá-la
ajudando-me até financeriamente com uma substanciosa soma. Sempre
foi uma pessoa afável e extremamente cortes.
2) Quando o chamou a aparecer frente o tribunal de doutrina?
Qual era o motivo? Por que motivo o Sr. foi escolhido entre outros?
R/ Em 1982 escrevi um livro Igreja: carisma e poder no qual aplicava
as intuições da teologia da libertação às
condições internas da Igreja. Ai denunciava a opressão
da mulher, o atropelo dos direitos humanos, a concentração
de poder nas mãos do clero e o controle severo das doutrinas. Isso
não agradou o Vaticano. Recebi um processo judicial junto a ex-Inquisição
presidida pelo Cardeal J. Ratzinger. Em 1984 sentei na mesma cadeira onde
sentou Galileo Galilei e Giordano Bruno e durante três horas fui
interrogado pelo Cardeal. Depois fui punido, pois me impuseram o silêncio
obsequioso, uma espécie de silêncio penitencial, fui deposto
da cátedra de teologia sistemátia e ecumência e proibido
de escrever e publicar. Mas onze meses depois fui liberado. Meu julgamento
foi feito no contexto da publicaçãso da Instrução
contra a teologia da libertação que foi lançada três
dias antes do meu julgamento. Assim se criou a atmosfera de julgamento
e de condenação também da teologia da libertação
que na época mobilizou a opinião pública mundial
que apoiava este tipo de teologia porque se oupava dos pobres do mundo
e da justiça necessária, questões éticas de
grande dignidade que comoveram as pessoas e as irrritaram contra Roma.
3) Poderia descrever o procedimento do tribunal? Por exemplo
foi dentro do Vaticano, quantos dias durou, e quantas pessoas o questionavam.
Era um ambiente amigavel ou hostil?
R/ Não tenho prazer em escrever sobre estas coisas, pois
elas são psicologicamente muito traumatizantes. Fui introduzido
no Palácio del Santo Offizio, a antiga Inquisição,
onde se praticavam as torturas. Atravessei acompanhado pelo Cardeal vestido
de forma oficial, uma imenso salão todo acarpetado e cheio de quadros
renascentistas nas paredes. No final havia uma pequena sala onde ocorreu
o interrogatório. Ele se deu entre eu e o Cardeal frente a frente.
Um notário ao lado anotava tudo. O ambiente era severo e pesado.
O Cardeal fazia as perguntas e apenas escutava. Discutíamos alguns
pontos que não cabe aqui detalhar. Assim foram três horas..
No final houve outra parte na qual participaram dois Cardeais Brasileiros
Dom Paulo Evaristo Arns de São Paulo e Dom Aloisio Lorscheider
que vieram a Roma para me apoiar e para dizer ao Cardeal Ratzinger que
ele podia julgar doutrinariamente minha teologia mas que eles como Pastores
queriam testemunhar que ela fazia bem aos fiéis e era boa para
a Igreja. Mas isso não ajudou nada pois mesmo assim fui condenado.
4) Como era Ratzinger durante as audiencias? Era profesional
ou impessoal, pastoral ou comprensivo, aumento o tom de voz ou foi afetuoso?
R/ O Cardeal foi sempre afável e elegante. Nunca ergueu
a voz. Era fácil ser benevolente pois tinha todo o poder em suas
mãos.. Percebi que ele possui uma inteligente brilhante e conceitos
claros e distintos como queria Descartes. Mas não possui a cordialidade
do pensamento que vai ao encontro do outro para também aprender.
Ele se sente o portador da verdade. Desde 1972 que tinha problemas com
a Congregação para a Doutrina da Fe. Praticamente cada livro
que publicava provocava cartas de explicação vindas de Roma.
O julgamento do livro Igreja: carisma e poder representou uma culminância.
Ai tive a nítida impressão que a lógica da Congregação
é a mesma da antiga Inquisição. Mudaram os métodos,
pois não mais torturam os corpos, mas a vontadde de condenar é
a mesma o que tortura a psiqué pela marginalização,
desmoralização e difamação que fazem do teólgo
diante dos bispos, proibidos de lhe convidar para asessorias, retiros
ou palestras. A Congregação não perdoa nada, não
esquece nada e cobra tudo. Não me parece que tal atitude tem algo
a ver com o espírito evangélico.
5) Porque o Sr. aceito a pena do "silencio obsequio"?
Ele ameaçaram retirar-lo como padre?
R/ Aceitei as penas e o silêncio obsequioso por um juizo
político. Eu entendi e assim tambem o entenderam muitos bispos
importantes da igreja brasileira que o objetivo da intervenção
do Vaticano não era propiramente eu. Queria atingir a Igreja do
Brasil, a igreja comprometida com o social, com as comunidades de base
e com a libertação. Eu era pretexto para frear o entusiasmo
pastoral da Igreja na luta ao lados dos pobres. Sabendo disso, eu acolhi
o silêncio obsequioso e as demais punições para impedir
que atingissem e condenassem as comunidades eclesiais de base e a teologia
da libertação. E creio que o consegui, pois os do Vaticano
ficarm surpresos com minha atitude de aceitação.
6) O que ocasionou sua saida do ministério em 1992?
R/ Suspensas penas eu voltei ao meu trabalho de professor e de
assessor de comunidades eclesiais de base e de apoio aos movimentos sociais.
O controle de Roma continuou, pois cada escrito meu devia ser censurado
por duas instâncias diferentes, uma da Ordem franciscana à
qual pertencia e outra do bispo. Durante a Eco-92 no Rio de Janeiro, quando
se reuniram os chefes de Estado do mundo todo para discutir a relação
entre desenvolvimento e meio ambiente, veio o Cardeal Sebastião
Baggio e me disse que eu não havia aprendido nada das punições.
Que deveria de novo entrar em silencio obsequioso, que deveria agora sair
da America Latina e do Brasil e que deveria escolher algum convento nas
Filipinas ou na Coreia. Eu lhe perguntei se nestes paises eu poderia falar
e escrever. Ele me respondeu que absolutamente nõ podia e que deveria
ficar em silencio no covento. Como a posição de Roma era
irredutível, tive que decidir, pois achava injusta esta punição.
Escrevi dois dias apos uma carta onde dizia que mudava de trincheria mas
não de luta em favor dos pobres. Deixava o ministerio sacerdotal
e a Ordem Franciscana e me autopromovi a leigos. Continuei meu trabalho
de professor e de assessor dos movimentos sociais e tambem de professor
de ética e filosofia da religião na Universidade do Estado
do Rio de Janeiro.
7) O Sr. acha que Ratzinger, como novo Papa, sera mais aberto
a discusao de varios temas, como insinuo nas primeiras declaracoes como
Benedicto XVI?
R/ Tudo indica que o novo Papa vá continuar a linha de
seu predecessor. Como não tem o carisma dele, seguramene vai dar
mais autonomia às igrejas locais e fazer um esforço de pacificar
a Igreja internamente porque há muitas feridas, amargura e divisões
provocadas pelas pesadas intervenções do Cardeal Ratzinger
sobre 140 teólogos que foram punidos, conferências de bispos
que foram humilhadas, bispos comprometidos com os pobres e os índios
perseguidos coo Dom Pedro Casaldáliga no Brasil e Samuel Ruiz no
Mexico e Leonidas Proaño no Equador e outros. Sem esta atmosfera
fraterna não se pode viver a Igreja como comunidade. Eu acredito
em milagres. Pode ser que agora, Bento XVI, livre da sombra de João
Paulo II, volte a ser aquilo que foi como jovem professor, aberto, gerador
de esperança e não de medo. Precisamos de uma Igreja que
retome a Reforma Catolica iniciada pelo Vaticano II e enriquecida com
as contribuições vindas das Igrejas da periferia do mundo
e se abra à nova fase da humanidade, a fase planetária,
atenta ao grito dos bilhões de oprimidos e do grito da Terra, das
aguas, dos solos, das floresta devastadas e que faça da Igreja
uma força de conclamação para a justica e a solidariedade
todos..
|