| *Entrevista dada ao jornalista Wanilson Oliveira
, do Jornal de Brasília
<wanilsonoliveira@hotmail.com>
O senhor falou em várias entrevistas que recebeu com
perplexidade a eleição do cardeal alemão Joseph Ratzinger
como o novo papa. Por que tanta preocupação? O que pode
provocar?
R/ O temor de muitos cristãos é que o novo Papa
Bento XVI se comporte como se comportou o Cardeal Joseph Ratzinger. Ele
moveu um combate cerrado a todo todo tipo de inovação na
Igreja e também na sociedade contemporânea. Ele tinha um
projeto explícito de restauração como o disse com
todas as palavras no seu livro Rapporto sulla la Fede ainda em 1986. E
o explicava: "restauração é a busca de um novo
equilíbrio depois dos exageros de uma abertura indiscriminada ao
mundo". Só que o equilibrio não aconteceu. Aconteceu
aquilo os sociólogos da religião ensinam e nós testemunhamos:
todos os processos de restauração acabam por suprimir o
pluralismo e gestar tendências regressivas e até fundamentalistas.
Em nome da restauração tentou liquidar com a Igreja da libertação
na América Latina e sua correspondente teologia, o que prejudicou
muito os movimentos sociais que não puderam contar com o apoio
mais decisivo da Igreja. E contra o mundo moderno alimentou um aberto
pessimismo a ponto de não reconhecer elementos válidos nas
suas muitas tendências, colocadas indistintamente sob o arco da
"ditadura do relativismo". Aqui creio eu há um equívoco
de base: em todos os movimentos e ideologias há sempre seres humanos
buscando um sentido. Significa blasfemar o Espírito de Deus pensar
que eles somente pensam erros e mentiras. Então neles também
há luzes a serem vistas e elementos a serem regatados. Espero que
o novo Papa não siga o caminho de seu pessimismo (como pode um
cristão ser pessimista?) que leva a um beco sem saida mas que se
abra à catolicidade,propria da experiência cristã.
Tanto conservadorismo pode afastar (imigrar) mais pessoas da
Igreja Católica? Porque?
R/ O efeito a curto e a longo prazo é que o conservadorismo
destroi nos cristãos o sentimento de pertença a um lar espiritual.
Começam a se decepcionar, a se irritar, a se sentir órfãos
e por fim a emigrar da Igreja. Grande parte da perda de fiéis por
parte da Igreja Católica se deve à fossilização
de sua liturgia, proibida de fazer inovações, à esterilidade
da doutrina oficial e ao medo que infunde de politização
da fé e outros alibis para não fazer processos de aggionamento
como s diz no dialeto eclesiástico. O fato de o Papa ter-se tornado
um superstar mediático religioso não mudou a tendência
porque o efeito de sua dramatização é superficial.
Não leva a um aprofundamento da fé, produz apenas uma emoção
previsível que também outros superstar produzem aqui apenas
com características religiosas.
Bento 16 deverá manter o conservadorismo da Igreja Católica.
O que o senhor acha do posicionamento dele em relação ao
uso do preservativo e do aborto? Em pleno século 21 a igreja não
deveria assumir novos posicionamentos em relação a isso?
R/ Provavelmente ele manterá o rigorismo da doutrina que
ele expôs em muitos documentos. Eu diria que ela é no seu
fundo cruel e sem piedade, pois não se pode responsavelmente proibir
os contraceptivos numa sociedade onde grassa todo tipo de doenças
venéreas e principalmente a AIDS. Um cristão que não
usa um contraceptivo peca contra a vida do outro ou contra sua própria
vida. Ou então decida entrar num convento, viver em estrita abstinência
sexual, cuidar para não virar homosexual ou pedófilo. As
coisas não são como imaginam os eclesiásticos, celibatários,
longe dos circuitos concretos de uma familia que deve cuidar da saúde
de seus filhos e não impor-lhes uma disciplina própria de
quem fez voto de castidade e de completa abstenção sexual
por opção religiosa. Proibir os contraceptivos na Afria
equivale a um crime, pois lá a dizimação do virus
HIV atinge muitos paises.A função da Igreja é anunciar
a utopia cristã sobre como é viver eticamente, formar as
consciências e respeitar as decisões que as pessoas tomam
em sua liberdade.O mesmo vale com referência à sociedade
pluralista onde ela é uma voz entre outras e não pode, no
espírito democrático, se impôr às demais. Dizer
o que o Cardeal Ratzinger disse que "um católico não
poderá receber a comunhão se votar em um candidto político
que é a favor do aborto" é intolerável intromissão
na política da sociedade. Espero que o Espírito Santo que
ele tanto acredita, e eu também creio, o ajude a abrir a cabeça
para ter ao menos o bom senso e deixar as pessoas viverem sem um super
ego castrador e penalizador de má consciência.
Na sua opinião o novo papa é capaz de surpreender
o mundo ainda mais que João Paulo II? Se sim. De que maneira ele
poderia impressionar ainda mais o mundo?
R/ Eu creio em milagres. Se ele voltar ao que era antes e que
eu conheci nos anos sessenta do século passado quando estudava
em Munique e ouvia entusiasmado suas conferências e depois até
cheguei a ser amigo dele ( pois publicou minha tese doutoral em alemão
que ninguém queria publicar por ter 600 paginas) então mudará
para melhor. Ele suscitava esperança, fazia duras críticas
ao centralismo romano, cobrava liberdade para a teologia poder dialogar
com as tendências culturais da sociedade. Quem sabe, agora livre
da sombra de seu predecessor ele possa ser ele mesmo, aquilo que foi outrora
e que poderá ser para benefício e até alegria de
muitos.
Quais as principais diferenças entre João Paulo
II e Bento 16?
R/ Acho que há pouca diferença. João Paulo
era um carismático, Bento XVI é um doutor. Um irradiava
ousadia, o outro timidez. Um abria amplamente os braços e os mantinha
abertos o outro os abre, se constrange e logo os fecha. No pensamento
era assim: aquilo que João Paulo II pensava, Ratzinger fundamentava.
Mas era a música de um instrumento só, o contra-baixo.
Principal ícone da Teologia da Libertação
no Brasil o senhor sofreu um processo judicial na Congregação
para Doutrina da Fé, no Vaticano, em 1984. Porque o senhor foi
punido? O que o senhor representava naquela época para o Vaticano?
Um perigo?
R/ Eu era um entre tantos teólogos da libertação,
nem era o mais radical. Meu irmão Clodovis era muito mais radical,
tinha conhecimentos minuciosos do marxismo de linha francesa e um rigor
de metodologia que o tornou famoso no campo da teologia mundial. Mas a
teologia da libertação era incômida para a sociedade
e ainda é e incômoda especialmente para Igreja. Ela prega
uma Igreja pobre, simples, identificada com os pobres e com sua cultura,
profética que denuncia as causas histórico-sociais da miséria
do povo, o bispo antes pastor que autoridade eclesiásatica, o teólogo
não só professor mas intelectual orgânico dos grupos
de base e por ai vai. Imagine um Cardeal em Roma, morando num palácio
, cercado de serviçais, com uma etiqueta de corte, com títulos
de nobreza, falando preferentmente latim, como vai entender um bispo que
deixa seu palacio e vai morar numa casinha popular como fez Dom Pedro
Casaldaliga, dom Waldir ou mesmo o Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns? Para
eles, os romanos, isso é destestável, pois deveriam renunciar
ao seu modo de vida. Em outras palavras, o modelo de Igreja romana a coloca
mais próximo dos palácios dos Cesares do que da barca do
pobre Pedro. Aqui está todo o conflito. Acusar que havia marxismo
e politização da fé é alibi para esconder
esta contradição. Porque sustentavmos a verdade desta opção
no seguimento do sonho do Nazareno fomos punidos e castigados. Mas nos
sentiamos solidários com o povo que sempre foi castigado pela sociedade
dominante.
O senhor foi punido pelo cardeal Ratzinger. Restou alguma mágoa
dessa época? Na verdade, que lembranças restaram?
R/ Curiosamente nunca guardei mágoa ou amargura, nunca
cheguei perder o sono ou ficar com uma neurose eclesiástica. Isso
não é nenhuma virtude. É meu modo de ser. Apenas
lamento ter experimentado que aquelas instâncias de controle da
fé em Roma, nada esquecem, tudo cobram e nada perdoam. Não
me parece que tais atitudes lembrem a Jesus, aquele que tinha a ternura
pelos humildes, comia com pecadores e se enchia de iracúndia sagrada
contra os hipócritas que pensam uma coisa e fazem outra.
O que o senhor acha que faltou para que um cardeal da América
do Sul, da África ou da Ásia fossem eleitos?
R/Eu era a favor de Oscar Rodrigues Maradiaga de Tegucigalpa
de Honduras. É um cardeal pastor, fala muitas linguas, toca 11
intrumentos, pilota avião e pacificou a Igreja da América
Latina depois dos estragos que Ratzinger fez com suas sucessivas intervenções.
E entendia e apoiava a teologia da libertação. Mas os Cardeais
não quiseram mudar nada. Preferiram, cheios de medo, seguir o caminho
da continuidade. Por isso talvez, a Capela Sistina se encheu de fumaça
quando foi eleito o novo Papa, pois a chaminé recusou a queimada
dos votos.
Quais os prejuízos que a igreja pode ter com o crescimento
da influência da Opus Dei?
R/Eu acho que se inflacionou a influëncia da Opus Dei na
Igreja. Eles são papalistas aduladores dos Papas,pouco importa
quem seja Papa, e nisso tem sempre vantagens pois ficam perto do poder
e lhe garantem apoio incondicional. Graças a Deus, quanto saiba,
o atual Papa, porque é inteligente, tem pouco a ver com a Opus
Dei.
Como fica a Teologia da Libertação?
R/ A teologia da libertação não depende
de conjunturas eclesiásticas mas do nivel de opressão e
miséria existente no mundo. Ela nasceu e continua nascendo no esforco
de escutar o grito dos excluidos e o grito da Terra, das águas,
das florestas, dos animais em extinção. E a partir do capital
espiritual e ético do cristianismo procura derivar inspirações
para se comprometer para mudar, junto com outros, de outros caminhos e
ideologias, esta anti-realidade. Enquanto houver alguem que grita, até
o juizo final, haverá algum cristão que achará que
é seu dever lutar pela libertação dos oprimidos.
Fico feliz que pensam assim tambem os budistas com os seus bodisattwas:
enquanto houver alguem que sofra, seja uma folha, seja um animal, seja
um ser humano, o iluminado renuncia de entrar no nirvana e pede para voltar
a este mundo para estar ao lado de quem esteja sofrendo, para que não
se sinta sozinho e tenha pelo menos a ele como companheiro. Oh graça
divina!
|