| Paradigma planetário A globalização comporta um fenômeno mais profundo que o econômico-financeiro. Implica a inauguração de uma nova fase da história da Terra e da Humanidade. O filósofo das ciências Thomas Kuhn e o físico quântico Fritjof Capra para entendê-lo introduziram no debate a questão da mudança de paradigma. Sim, estamos mudando de paradigma civilizacional. Com isso queremos dizer: está nascendo um outro tipo de percepção da realidade, com novos valores, novos sonhos, nova forma de organizar os conhecimentos, novo tipo de relação social, nova forma de dialogar com a natureza, novo modo de experimentar a Última Realidade e nova maneira de entender o ser humano no conjunto dos seres. Este paradigma nascente nos obriga a operar progressivas travessias: importa passar da parte para o todo, do simples para o complexo, do local para o global, do nacional para o planetário, do planetário para o cósmico e do cósmico para o mistério e do mistério para Deus. A Terra não é simplesmente a adição do fiísico, do vital, do mental e do espiritual. Ela encerra todas estas dimensões articuladas entre si, formando um sistema complexo. Isso nos permite perceber que todos somos inter-dependentes.O destino comum foi globalizado. Agora ou cuidamos da Humanidade e do Planeta Terra ou não teremos mais futuro algum. Até hoje podíamos consumir sem nos preocupar com a exaustão dos recursos naturais; podíamos usar da água como quiséssemos sem consciência de sua extrema escassez; podíamos ter filhos quantos desejássemos sem temer a superpopulação; podíamos fazer guerras sem medo de uma catástrofe completa para a biosfera e para o futuro da espécie humana. Não nos é mais permitido pensar e viver como antes. Temos que mudar como condição de nossa sobrevivência na biosfera. Para a consolidação deste novo paradigma é importante superar o fundamentalismo da cultura ocidental, hoje mundializada, que pretende deter a única visão das coisas, válida para todos. A realidade, no entanto, desborda de todas representações, pois está cheia de infindas virtualidades que podem se realizar sob outras formas, não ocidentais. Por outra parte, o risco que corremos nos propicia a chance de reorganizarmos de maneira mais justa e criativa a Humanidade e toda a cadeia da vida. Essa criatividade está inscrita em nosso código genético e cultural. Pois, só nós fomos criados criadores e co-pilotos do processo evolutivo. O efeito final será uma Terra multicivilizacional, colorida por todo tipo de culturas, de modos de produção, de símbolos e de caminhos espirituais, todos eles acolhidos como legítima expressão do humano, com direito de cidadania na grande confederação das tribos e dos povos da Terra. Por isso, devemos olhar para frente, recolher todos os sinais que nos apontam para um desfecho feliz de nossa perigosa travesia e gestar uma atmosfera de benquerença e de irmandade que nos permita viver minimamente felizes nesse pequeno Planeta, escondido num canto de uma galáxia média, no interior de um sistema solar de quinta, mas sob o arco-iris da boa vontade humana e da benevolência divina. As palavras iluminadas do ex-Presidente da República checa, Vaclav Havel nos desafiam: "A tarefa política central nos próximos anos será a criação de um novo modelo de coexistência entre as diversas culturas, povos, etnias e religiões, formando uma só civilização interconectada". |