| Pão e Beleza Nos inícios de maio começou no Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Petrópolis, entidade que existe há mais de 20 anos,o projeto Pão e Beleza. Muitas são as frentes de trabalho como o Pro Vita de proteção às testemunhas ameaçadas de morte, mulheres que sofrem violência e que fazendo e comercializando massas melhoram sua renda, projeto de arte e educação com jovens sob risco que confeccionam belíssimos cartões ecológicos, assistência jurídica às periferias e a cooperativa de construção de casas populares (ja foram construidas mais de 300). Mas o Pão e Beleza concretiza a visão de ser humano subjacente a todos os projetos, visão que vê o ser humano com muitas dimensões que devem ser atendidas de modo integrado. Ele tem fome de pão e por isso precisa comer e cuidar de sua saúde. Mas também tem fome de beleza, vale dizer, de reconhecimento, de instrução,de participação nos bens culturais como escutar música, ver algum video, produzir alguma coisa e conscientizar seus direitos. Pois, é esse o propósito que o projeto Pão e Beleza procura realizar. Trata-se de oferecer diariamente à cerca de trezentas pessoas que vivem na rua e somente à elas uma refeição abundante e de qualidade por um real. E simultaneamente a possibilidade de satisfazer a dimensão de beleza:transitar pelos vários espaços, ai se deter e participar das atividades como ser alfabetizado, conversar sobre seus problemas, ouvir histórias, ver e discutir um video juntos, escutar música e outras. E até dormir, pois dormir na calçada (eles não querem que se diga que dormem na rua mas na calçada, pois na rua dormem os mendigos embriagados)é sempre muito perigoso. Tudo é feito numa atmosfera de acolhida com educadores preparados que se orientam pela pedagogia do cuidado. Com apenas um mês de funcionamento já presenciamos uma irradiação benfazeja que envolve os próprios usuários que se descobrem como gente e começam a mudar. Logicamente se assistem a fenômenos curiosos: alguns comem montanhas de comida (podem repetir) como se quissessem comer pelo ontem, pelo hoje e pelo amanhã. Chegam até a desmaiar. Outro, depois de três dias, se levanta no meio do refeitório e diz aos companheiros: agora sei que tambem sou gente, pois entrei aqui e me apertaram a mão. Faz 15 anos que ninguem apertou minha mão. Outro viu na mesa próxima um companheiro que o havia assaltado há três dias e lhe levado o capote. Chamou a coordenadora e disse: vou chamar a polícia para prender este ladrão. A coordenadora lhe explicou que aqui é diferente pois, se acredita no ser humano capaz de se corrigir. Foi ao que havia roubado o capote e lhe disse se estaria disposto devolvê-lo pois o roubado estava ai e o havia descoberto. Ele concordou. Foram apresentados um ao outro. Devolveu-lhe o capote. Ai o roubado comentou: você deve ter tido frio porque não vendeu o capote. O outro respondeu, sim estou passando muito frio. Então o roubado lhe disse: eu tenho outro capote, pode ficar com esse. E se abraçaram. Soube-se que um deles tinha naquele dia aniversário. Um bolo foi improvisado e todos cantaram parabens. Ele se levantou e disse. Eu estava sozinho no mundo. Agora sei que tenho irmãos e irmãs e que aqui está a minha família. Sou pobre mas posso ser feliz. Uma convicção cresce em nós: nada está perdido; tudo pode ser resgatado se houver bondade amorosa e cuidado. |