| Família: utopia e realidade Por mais valores irrenunciáveis que contenha, a família não deixa de se inscrever dentro da condição humana que é sempre a convivência dos contrários. Por isso nela há simultaneamente dimensões de luz e de sombra. Nas culturas ganha muitas formas de concretização. Na nossa, existe ao lado das famílias-matrimônio, as famílias-parceria (coabitação e uniões-livres) dando origem à família consensual não conjugal. A introdução do divórcio deu lugar a famílias unipessoais (a mãe ou o pai com os filhos/filhas) ou multiparentais (com filhos/filhas provenientes de matrimônios anteriores) e também as uniões entre homosexuais (homens e mulheres). Até que ponto estas formas realizam a substância daquilo que chamamos família? Antes de qualquer resposta, a atitude cristã mais adequada e não moralizante é: se em todas estas formas existe amor, e não há porquê duvidar, então estamos diante de algo que tem a ver com Deus que é amor e bondade. Deve, pois, vigorar respeito e não preconceito. Mas a resposta à pergunta deriva do entendimento que temos de família. Nesse entendimento deve estar sempre presente o utópico e o concreto, pois ambos formam a realidade, também a da família. O concreto são as coisas como ai estão. O utópico é o que é virtual e possível no concreto, sua referência de valor, por certo nunca, totalmente alcançável mas que tem por função manter a família sempre aberta e perfectível e jamais fechada e estagnada em alguma forma, considerada a única possível, por melhor que seja. Um especialista brasileiro, Marco Antônio Fetter, criador da primeira Universidade da Família no Brasil (RS), assim define a família: "um conjunto de pessoas com objetivos comuns e com laços e vínculos afetivos fortes, cada uma delas com papel definido, onde naturalmente aparecem os papéis de pai, de mãe, de filhos e de irmãos". João Paulo II na Carta Apostólica Familiaris Consortio (1981) e na Carta às Famílias (1994) ensina que a família é "uma comunidade de pessoas, fundada sobre o amor e animada pelo amor…um complexo de relações interpessoais – relação conjugal, paternidade-maternidade, filiação, fraternidade – mediante as quais cada pessoa humana é introduzida na família humana". O núcleo utópico e imutável da família é o o amor, o afeto, o cuidado de um para com o outro e a vontade de estar junto, sendo os pares abertos à procriação, quando possível, ou, ao menos, ao cuidado de todas as formas de vida, que é um modo também de realizar a fecundidade. Este núcleo deve poder se realizar nas várias formas concretas de convivência. Que seria da família e dos parceiros se não ardesse neles a chama da utopia? Todos vivem da vontade de encontrar e viver o amor, sonham em poder realizar-se a dois e ser minimamente felizes. Sem esse motor, a vida humana perderia sentido, não obstante todas as dificuldades, deformações e frustrações. Análises transculturais demonstraram que quando esse núcleo de amor existe, há menos violência, mais sensibilidade para a cooperação social, diminuem os conflitos familiares e cái o número de divórcios ou separações dilacerantes. Para os cristãos a família é o lugar onde a Família divina do Pai, Filho e Espírito Santo se revela e onde também se realiza a Igreja na sua expressão doméstica. Todas essas perspectivas estarão em debate na Semana Nacional da Família a realizar-se entre 9 e 15 de agosto pelo Brasil afora.
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