A globalização do inimigo

As declarações do Presidente George W. Busch são inequívocas: o terrorismo será enfrentado em qualquer parte do mundo; atarcar-se-ão também aqueles países que dão guarida às redes do terror. Quem não aceita esta luta é contra os EUA e a favor do terrorismo.

Aqui há uma manifesta globalização do inimigo e uma globalização da guerra com características singulares, combinando a brutalidade da guerra tecnológica moderna com a guerra suja da inteligência que implica atos de terror e o assassinato planejado de lideranças tidas por terroristas.

Esta estratégia nos projeta cenários sombrios e altamente perigosos para a convivência da humanidade no processo inexorável da globalização, fase nova da história da Terra (Gaia) e da espécie homo sapiens e demens.

O primeiro efeito ocorreu nos EUA: a criação do Conselho de Defesa Interna, dotado de uma Força-Tarefa de Rastreamento de Terroristas, fundos específicos e de sua correspondente ideologia justificadora. Nós conhecemos o que significa o Estado de Segurança Nacional cujo ideólogo-mor Carl von Clausewitz (1780-1831), da guerra de guerrillha ("a guerra é a continuação da política com outros meios") inspirou os processos de seu funcionamento. Em nome da segurança inverte-se o sentido básico do direito: todos são supostamente terroristas até prova em contrário. Em consequência disso, surgem as espionagens, os grampos, as prisões para interrogatórios, as violências por parte dos corpos de segurança e as torturas. Cria-se o império da suspeita e do medo e a quebra da confiança societária, base de qualquer pacto social. Há o risco do terror de Estado.

Dois temores bem fundados acolitam semelhante universalização do inimigo: a delimitação do que seja terrorismo e a identificação dos nichos alimentadores de terrorismo.

A formulação de bem-mal, amigo-inimigo do Presidente Bush nos remete a um dos grandes teóricos modernos da filosofia política de transfundo nazi-fascita, Carl Schmitt (1888-1985). Em seu O Conceito do Político (1932, Vozes 1992) diz: "a essência da existência política de um povo é sua capacidade de definir o amigo e o inimigo"(p.76). Quem é inimigo? "É aquele existencialmente algo outro e estrangeiro, de modo que, no caso extremo, há possibilidade de conflitos com ele…Se a alteridade do estrangeiro representa a negação da própria forma de existência do povo, deve ser repelido e combatido para a preservação da própria forma de vida. Ao nivel da realidade psicológica, o inimigo facilmente vem a ser tratado como mau e feio"(p.52).

Bush interpretou a barbárie de 11 de setembro de guerra contra a humanidade, contra o bem e o mal, contra a democracia e a economia globalizada de mercado que tantos benefícios (na presssuposição dele) trouxe para a humanidade. Quem for contra tal leitura, é inimigo, o outro e o estrangeiro que cabe combater e eliminar. Tal estratégia pode levar a violência para dentro dos EUA e para todos os quadrantes do mundo. É a violência total do sistema contra todos os seus críticos e opositores. Estamos assistindo a concretização desta lógica maniqueista por parte da administração norte-americana e por parte dos talibãs.

O segundo problema aventado é a identificação dos nichos fomentadores de inimigos. Na atual estratégia são países tidos por párias ou bandidos. Dentro de pouco percerberce-á que mais importantes são ideologias libertárias e religiões de resistência e libertação como ocorreu em todo o Terceiro Mundo e na oposição ao regime soviético. Elas criam verdadeiras místicas de engajamento e fazem surgir militantes altamente comprometidos com a superação da presente ordem social mundial, devido às altas taxas de iniquidade social que produz. Entre eles se contam as históricas esquerdas anti-capitalistas, os movimentos transnacionais contra o tipo hegemônico de globalização econômico-financeira e os setores religiosos ligados à mudanças sociais como o cristianismo de libertação nascido na América Latina e ativo na Africa, na Asia e em setores importantes da sociedade civil norte-americana e européia, grupos fortes do islamismo popular, de cunho fundamentalista e setores teológicos islâmicos que resgatam as origens libertárias da gesta de Maomé e o sentido original do Alcorão. Todos esses serão considerados inimigos eventuais. Conhecemos as consequências de tais identificações: a vigilância, a tentativa de desqualificação pública, os sequestros, as torturas, os assassinatos. Será que os EUA não acolheram uma lógica que os condenará repetir com mais furor o que ocorreu na América Latina nos anos 60 sob os Regimes de Segurança Nacional (bem entendido, segurança do capital)?

Tais espectros não são fantasias sinistras. Os ninhos de serpentes foram criados. E elas crescem, se multiplicam e podem morder mortalmente agora em nivel global.