| Futebol: festa da libertação Cada povo precisa de um espelho no qual se possa ver, alimentar sua auto-estima e entrever seu amanhã. Como nação periférica e retardatária porque um dia foi colonizada e continua sendo permanentemente recolonizada,o Brasil é forçado a se ver no espelo dos outros ou tem seu espelho embaçado ou partido. Um sociólogo de renome, depois feito Presidente, nos convenceu,outrora, de que a dependência, antes de ser teoria sociológica, representa o fato brutal de que tiraram de nossas mãos a capacidade e os meios de desenhar nosso próprio destino. Encontramo-nos sempre atrelados a um projeto mais abrangente que outros decidem por nós (FMI, G-7) e ao qual nos devemos incorporar. Transformamo-nos num imenso proletariado externo dos países opulentos e exploradores. Antigamente exportávamos matérias-primas, em seguida matérias semifaturadas, depois manufaturadas, e hoje, exportamos diretamente capital para os países já cheios de capital, o que configura, segundo Marx, a forma mais extremada de superexploração. A maioria das classes dirigentes brasileiras estão de costas para o povo e se aliaram aos poderes transnacionais. Elas representam aqui dentro o feitor ausente, reprimindo as tentativas de um projeto-Brasil-para-todos. A consequência é perversa: transformamo-nos uma realidade-espelho e não uma realidade-fonte. Mas nenhuma opressão é completa. Mesmo nascendo escravo, o ser humano permanece livre, pois a liberdade é ontológica e nunca pode ser destruida ou totalmente aferrolhada. Há sempre brechas por onde se elabora um anti-poder, se organiza a resistência e se concretizam os passos de uma libertação possível. É nessas brechas que se encontra o espelho verdadeiro no qual o povo oprimido se vê a si mesmo, se orgulha de suas lutas e antecipa, embora de forma precária, mas verdadeira, o seu porvir. Vários são os lugares onde se encontra esse espelho que reproduz nossa imagem autêntica: a religião popular, feita de sincretismos só nossos, o carnaval, a música popular brasileira e especialmente o futebol. Nesses lugares sociais ganhamos a convicção de que somos bons e até excelentes e que o Brasil pode dar certo. Detenhamo-nos no caso do futebol, cuja copa mundial estamos festejando. Digo festejando, pois para nós o futebol se inscreve no âmbito da festa e do jogo, portanto, da alegria de viver, da superabundância de sentido e da inclusão de todos. Bem disse o antropólogo Roberto Da Matta que melhor estudou a significação do futebol para a identidade do brasileiro: “o futebol é uma máquina de socialização de pessoas, um sistema altamente complexo de comunicação de valores essenciais”. Um desses valores essenciais é a capacidade de integração que o futebol propicia. Todos entendem de futebol. Todos opininam. Todos podem falar. Todos podem se indignar quando seus heróis os frustram. Todos, no estádio, podem fazer suas terapias gratuitas, dando vazão ao que teve de ser recalcado na estratificação social rígida e na maçante vida de trabalho mal pago. É no âmbito do futebol que pessoas do “povão”, tidos como zeros sociais e econômicos, podem irromper como heróis e vir a brilhar como uma estrela nacional e internacional. É no futebol que podemos mostrar nossa criatividade e força de improvisação. O bom jogador controla a bola com a perfeição que um técnico da Nasa controla sua nave espacial. Por fim, o futebol se transformou para a grande maioria numa espécie de cosmovisão. É pelo futebol que interpreta o mundo como algo não fechado mas sempre aberto, como uma realidade carregada de esperança, pois até no último minuto se pode virar o jogo. É o lugar da paixão, do sofrimento, das rezas fortes, das promessas aos santos, das alegrias incontidas, do congraçamento. Futebol não se assiste sozinho. Precisa-se da galera para comentar, para largar os palavrões libertadores, para comemorar e, no final, para tomar o chope com os amigos. É aqui que se encontra um espelho no qual nos vemos e temos mil razões para nos orgulhar, pois somos bons, quem sabe, os melhores do mundo, senão de fato, sempre na esperança. |