* Entrevista exclusiva dada ao Estado de São Paulo.
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João Paulo II e questões atuais

1 - Como o senhor resumiria o papado de João Paulo II?

R/ O papado foi a figura do papa mesmo, pastor e profeta. Como pastor era aberto e buscava o diálogo com todos comparecendo como uma figura de pai benevolente com características de mãe. Esse Papa é que está sendo chorado, como se chora a perda de um ente querido. Como profeta, homem da palavra escrita e falada e mais ainda dos gestos simbólicos surge como duro e inflexível em seu ensinamento. Poucos escutavam sua mensagem, fora do tempo, mas captavam a mensagem que era sua figura carismática com habilidade de dramatização mediática de um grande artista. Essa figura permanecerá na memória da humanidade do início do novo milênio.

2 - Para a Teologia da Libertação, foi o pior momento?

R/ Com referência à teologia da libertação deve duas atitudes e em dois momentos diferentes.Enquanto existia o socialismo real e o marxismo, João Paulo II era totalmente contra esse tipo de teologia porque, na interpretação dele, poderia servir de cavalo de Troia na penetração do comunismo na América Latina, comunismo de versão stalinista que ele conheceu em seu pais. Condenou-a pensando fazer um ato de amor e de proteção ao povo. Aqui há um equivoco: o perigo na América Latina nunca foi o comunismo mas sempre foi o capitalismo selvagem e as elites sem qualquer sensibilidade social. Depois que o regime soviético caiu, ele pôde constatar a devastação moral e humana que o capitalismo trouxe aos paises do Leste europeu,especialmente à Polônia. Deu-se conta dos valores morais que o socialismo mantinha,no sentido do bem comum, da solidariedade e da moralidade pública. O marxismo já não era perigo para América Latina. Foi em então,em 1991, que escreveu uma carta à CNBB onde dizia que a teologia da libertação “não é somente útil mas necessária” na superação das injustiças sociais. E deixou os teólogos em paz.

3 - O senhor sofreu duras punições durante o período de João Paulo II. Em algum momento o senhor se ressentiu da atitude pessoal do papa ou sempre achou que ele foi levado a tomar as decisões por assessores e não tinha noção exata das punições?

R/ O Papa chegou a ler livros meus. Uma vez que o encontrei, apresentado pelo Card. Ratzinger,me disse:”estou lendo um livro de você,devagar, devagar”. Estava treinando seu portugues porque viria ao Brasil. Eu mandava sempre meus livros pelo Card.Paulo Evaristo Arns. Certa feita comentou com um dos bispos amigos: “ o Boff com sua teologia nunca me decepcionou”. E quando devia ser sumariamente cassado como teólogo católico ele perguntou ao Card. Ratzinger que apresentava o texto da condenação:”conversou já com o teólogo Boff?” Como o Card tivesse respondido que não, então o Papa retrucou: “chame-o a Roma e converse com ele” Foi assim que surgiu aquele famoso “diálogo” que não se sabe até hoje se foi um real processo doutrinário ou um diálogo forçado. De toda as formas tive que sentar na mesma cadeirinho onde sentou Galileo Galilei e Giorndano Bruno e outros companheiros de tribulaçãoes mais notáveis que eu. Quando fui punido com um tempo indeterminado de “silêncio obsequioso” foi ele que o abreviou para não parecer que agia como os militares brasileiros que impunham silêncio aos jornalistas. Comigo ele foi antes Pastor que Profeta..

4 - O cardeal Ratzinger é, acredito, o maior adversário da Teologia da Libertação. O que significaria, para a Igreja Católica e para a Teologia da Libertação, a escolha do Ratzinger como novo papa? Ainda hoje o cardeal Ratzinger se mobiliza contra a Teologia da Libertação? De que maneira?

R/ Ratzinger é um dos cardeais da Cúria mais “odiados” pela Igreja Universal pela sua rigidez e porque humilhou a conferências de bispos e a colegas cardeais pela forma autoritária como sempre tratou as questões de fé. Estimo que jamais será papa, pois seria um excesso do mesmo,coisa que a inteligência dos cardeais não permitiria. Depois que escreveu dois documentos sobre a teologia da libertação um em 1984 condenatório, e outro em 1987 positivo, crê que já cumpriu sua tarefa e não perseguiu mais os teólogos por serem da libertação.

5.Que avaliação o senhor faz do pontificado de João Paulo II no campo teológico – no campo dogmático e no moral?

R/ No campo teológico este João Paulo II foi conservador. Manteve a doutrina e não era afeito à reflexão craitiva. A tese que escreveu em Roma sobre a fé em S. João da Cruz (ou Santa Teresa, não sei mais bem) mal foi aprovada e saiu um resumo numa revista espanhola. Li o texto e o achei fraco. Mas para suprir sua limitação chamou um teólogo eminente que é o Card. Joseph Ratzinger. Este era a cabeça do Papa e ele, o cardeal, tinha consciência disso pois chegou a comentar com colegas de teologia que se não fosse ele, haveria muitas insuficiências no magistério do Papa. Mesmo assim este Papa disse uma frase que eu mesmo ouvi em Puebla e que depois foi publicada oficialmente que vale todo um magistério, pois, é revolucionária: “Deus não é solidão mas comunhão, pois Deus é Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo”. Esta visão resgata o modo cristão de falar de Deus, sempre em forma trinitária e não monoteista, como no judaismo e islamismo. Dizer que Deus é comunhão é estabelecer a relação, o amor e interdependência de todos com todos como a estrutura fundamental de todo o ser, do universo e de cada pessoa humana, feitos à imagem do Deus-comunhão. Em termos politiicos significa que Deus é representado no mundo por comunidades e formas participativas de relaçãoe não por um único chefe na familia, na escola, na sociedade e na Igreja. Deus não é a solidão do uno mas a comunhão da pluralidade de pessoas.

Na moral o Papa foi mais que conservador, foi rígido e fixista e em alguns aspectos com referência ao juizo que fez dos homosexuais e à proibição do uso da camisinha, mesmo com os riscos da Aids, até sem misericórdia. Ele possuia uma noção neo-escolástica da natureza como algo dado uma vez por todas, imutável, fora das mutações históricas e do processo evolucionário. Essa base é insuficiente para formular um discurso que seja dequado e responsável face ao peso das questões.

6. O senhor acredita que a Igreja possa voltar a se abrir um pouco mais, em matéria de pesquisa teológica, com o próximo papa?

R/ Nenhuma pesquisa séria, em qualquer área, se faz sem a necessária liberdade. Os bispos podem ser mais conservadores pois estão ligados a doutrinas e a tradições.Eles não devem errar tanto. Deixem os teólogos errar, Mas com suas produções ajudam os bispos em seus pronunciamentos. Eles continuamente retomam o caráter de mistério das realidades religiosas. E o mistério não se deixa enquadrar em fórmulas. Por isso cada geração deve ensaiar um modo de dizer que seja contemporâneo e compreensível aos professantes. Depois a teologia se faz no confronto permanente com as filosofias e visões de mundo que estão em debate na sociedade. Ela participa do debate e para isso precisa ouvir, mostrar-se criativa nas respostas e ganhar credibilidade na medida em que toma a sério as buscas humanas e mostra também o caráter aberto e incompleto das respostas. Não temos respostas para tudo. E a fé não dá conta de todas as questões, especialmente, emudece diante das tragédias como o tsunami no Sudeste da Asia. É ai que se manfiesta a fé como um acolher sem ver, um silenciar reverente face a um mistério sobre o qual não podemos lançar nenhuma luz. Essa sinceridade a teologia precisa mostrar. Quando leio alguns teólogos e mesmo certos pronunciamentos dos papas tenho a impressão de que acabaram de sair de alguma entrevista privada com Deus. Não podemos levar essa ilusão aos fiéis e às pessoas que buscam alguma luz. Devemos esta na busca como todos os humanos.

7. Qual seria o perfil que o próximo papa deveria ter para o mundo de hoje?

R/ Eu acho que o futuro Papa tem que ser um profeta e um pastor. Um profeta que com coragem denuncia as perversidades e irracionalidades que gracam hoje no mundo, dividindo de cima abaixo a família humana entre aqueles poucos que muito têm e aqueles muitos que pouco têm. A injustiça social mundial significa um grito canino lançado ao céu. Se o Papa não escutar esse clamor e não denunciá-lo não estará na herança de Jesus que chamou benaventurados os pobres e infelizes os ricos. Deve ser simultaneamente um pastor que cuida, que consola, que enxuga lágrimas e que alimenta permanentemente a esperança de que não estamos abandonados mas que Deus anda conosco. Pastor e profeta que se alia a todos os demais líderes religiosos e espiituais que mantém a chama sagrada da espiritualdidade acesa e não deixa que sucumbamos no puro materismo e consumismo. E deverá convocar a humanidade a um outro padrão de comportamento face à natureza e aos recursos escassos como água potável e fontes de energia. Se não cuidarmos todos juntos da Casa Comum corremos o risco de ir ao encontro do pior e até permitir a destruição do projeto planetário humano. O Papa deverá entender que agora a nova centralidade não se dá com a igreja mas com a humanidade e a Terra. Em que medida o cristianismo e a Igreja ajudam a garantir um futuro de esperança ou simplesmente permitem o descuido e a alienação face à gravidade do alarme ecológico e não ajudam a evitar uma catástrofe sem precedentes na história. Para isso o Papa deverá dialogar com as demais religiões, fazer com que os teólogos participem do diálogo com as ciências da Terra e garantir um mínimo de espiritualidade na nova sociedade mundial que está surgindo.

8. O que deveria mudar na Igreja diante da realidade e dos desafios do século 21?

R/ Muita coisa. Mas eu me contentaria apenas com uma: que a Igreja renuncie à sua arrogância institucional na ilusão de que somente atraves de sua janela se pode contemplar a paisagem divina e que somente ela possui o monopólio da revelação e da verdade revelada. Essa arrogância é insustentável teologicamente, pois pressupõe que Deus apenas cabe dentro da cabeça dos católicos ou cristãos e que o Espírito está amarrado ao discurso da Igreja. O que sabemos pelas proprias fontes da fé é que o Filho ilumina a cada pessoa que vem a este mundo e não apenas aos batizados e que o Espírito sopra onde quer e que Deus quer ser adorado em espírito e em verdade, pouco importa se em Jerusalém, em Roma ou Cracóvia. Esta renuncia faria a Igreja descobrir a obra de Deus na história dos povos e das demais religiões. Em outras palavras, recuperaria a teologia dos primeiros onze capítulos do Gênesis. Ai se fala dos povos da Terra e ainda não do povo de Israel, tido como povo eleito. E todos os povos são povos de Deus. Ora esses povos existem hoje e estão por toda a Terra. Todos eles são visitados por Deus e formam o grande Povo de Deus na história. A Igreja se associa a esse povo animando aquilo que une a todos que é a crença na presença inefável de Deus em todos, caminhando com seu Povo nas quedas e ressurreições.

9. É possível que haja mudanças expressivas no campo da ética e da moral? Haveria, especificamente, alguma alteração na orientação do magistério para questões como aborto, controle de natalidade e comportamento sexual?

R/ Não creio que um Papa sozinho tenha coragem de fazer inovações nestas áreas, dado o peso da tradição do magistério papal dos últimos anos, caracterizada como rigorista e inflexível. Criaria divisões profundas na cristandade. Seguramente nas discussões anteriores à eleição os cardeais fazem acertos doutrinários e morais e que o futuro Papa deve assumir. Para quebrar esse impasse instituicional, clama-se por toda a Igreja por um novo Concilio. Desta fez será com mais participação de toda a Igreja, com leigos, homens e mulheres, padres, representantes de comunidades ao lado de bispos e padres além de representantes de outras religiões. Talvez até, face às novas exigências da globlização, far-se-á um concilio ecumênico, com todas as igrejas que assumem os dogmas cristologicos e trinitários dos primeiros cinco séculos. Ai sim haveria a possibilidade, especialmente com a contribuição dos leigos e de cientistas de haver modificações com referência à moral, aos costumes e às formas diferente de expressar a fé, consoante as diferentes culturas. Pessoalmente creio que a Igreja irá superar uma visão juridista da ética cristã. Apresentará a utopia cristã sobre amor, a sexualidade, a família, a natureza e a manipulação genética. E deixará a concretização desta utopia às igrejas continentais e nacionais, consoante as várias sensibilidades e tradições culturais dos povos. Na verdade falta uma utopia cristã sobre todos estes temas, por isso, a doutrina da Igreja dá a impressão de rigidez e de imobilidade que provoca falta de esperança e até de inumanidade em seus pronunciamentos.

10. Até agora, a Igreja mantém-se irredutível na exigência de celibato para o sacerdócio e não quer nem discutir a proposta de sugestão de mulheres. Esses itens podem evoluir?

R/ Podem evoluir como evoluiram nas outras Igrejas. Trata-se, no fundo, de questões disciplinares que surgiram um dia e que podem ser abolidas. A Igreja só teria vantagens com a abolição da lei obrigatória do celibato. É perfeitamente plausível que haja padres celibatários por opção e padres casados e até padres pro tempore, apenas por um determinado tempo. Isso permitiria à Igreja atender mais adequadamente o deficit de ministros em todas as dioceses do mundo. A Igreja está diminuindo numericamente em muitas partes do mundo, por causa desta questão do celibato. Da mesma forma com referência às mulheres. Bastava a Igreja reconhecer e consagrar o que as mulheres já fazem nas comunidades, especialmente,nas comunidades de base, onde elas têm hegemonia na condução da vida comunitária. A maioria das igrejas deram já este passo. A Igreja ficou muito mais bem servida, menos patriarcal, mais equilibrada em termos das relações de gênero, mais sensível e humanizada. Esse tema também exigiria um concilio porque um Papa não suportaria sozinho as muitas pressões contrárias que viriam sobre ele, especialmente dos estratos da Curia Romana sempre tradicionalista e hábil em maneijar o poder para esvaziar determinações dos Papas e “sottosedere” às questões, como eles dizem, quer dizer, “sentar sobre as questões” até serem esquecidas.

11. Apesar de ter deixado o ministério e se desligado da Ordem dos Franciscanos, o senhor continua fazendo Teologia. Acredita que possa voltar ao magistério com o novo papa?

R/ O Vaticano teria preferido que fosse tudo menos teólogo, melhor seria fazer-me subdiretor da coca-cola do Rio. Mas continuei como teólogo, dando cursos, aulas em faculades ecumênicas e sendo professor visitante em várias universidades européias que têm dentro delas faculdades de teologia. E tenho continuado a pesquisa e publicação de textos. Tenho percebido que como leigo e teólogo posso penetrar em lugares e dialogar com grupos com os quais dificilmente um teólogo institucional seria convidado , seja no nivel das bases, dos movimentos sociais, seja no nivel acadêmico ou até com empresários, banqueiros, políticos e pesquisadores. Nestas circunstâncias não faz sentido voltar a ser teólogo com uma função institucional. A situação de leigo permite uma inserção mais profunda na realidade concreta e sentir os problemas e as buscas humanas, tambem perceber quanta santidade existe entre as pessoas que muitas vezes sequer se inscrevem num credo religioso.