* Entrevista exclusiva dada ao jornal O Globo.
Entrar em contacto com cica.guedes@ogloblo.com.br

Pontificado de J.P. II e as tensões na Igreja

- Gostaria que o senhor falasse primeiramente sobre seu enfrentamento com a Santa Sé. Foi um embate de 20 anos, que se tornou ainda mais acirrado após João Paulo II ter se tornado Papa e ter feito Joseph Ratzinger seu principal colaborador. Como o senhor avalia os caminhos que a Igreja tomou depois de sua saída, em 1992?

R/ Quando o Card. Joseph Ratzinger foi chamado a Roma por João Paulo II para ser o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé eu escrevi uma carta entusiasmada a ele, pois éramos amigos e manifestei minha alegria, pois, dizia, agora teríamos tempos de liberdade para os teólogos. Qual não foi minha suprersa, dias após, quando me respondeu que havia descoberto várias pendências minhas com Roma e que deveríamos logo resolvê-las. Eram questões ligadas aos meus livros sobre Cristo. E resolvemos por escrito tais questões. Depois em 1984, devido ao livro Igreja:carisma e poder fui simplesmente convocado para Roma, para lá, sob forma de um processo doutrinário, responder às questões suscitadas. O que de fato ocorreu no dia 7 de setembro do mesmo ano.. A consequência foi a deposição da cátedra de teologia e a imposição de um chamado “silêncio obsequioso”. Depois de 11 meses me liberaram de todas as penas. Mas continuou a vigilância de forma que em 1992 quiseram me impôr as mesmas penas com o agravante de que deveria sair do Brasil, ir para a Coréia ou para as Filipinas. Mesmo lá deveria estar sob o novo “silêncio obsequioso”. Considerei esta nova medida excessiva e acabei deixando a Ordem Franciscana. Continuei como teólogo e me fiz professor de ética e filosofia da religião na UERJ. Para os teólogos do mundo inteiro, a publicação do pensamento criativo, especialmente ligado a temas da Igreja e da moral se tornou muito difícil. Cerca de 140 teólogos foram alcançados por alguma punição, até dois meses atrás com a condenação do teólogo norte-americano Roger Haight. Nenhuma criatividade é possível sem a liberdade. O cristianismo não é um fóssil, mas uma realidade viva que demanda contínuos aprofundamentos, mesmo porque, mexe com o mistério que jamais padece ser enquadrado numa determinada linguagem humana. Sob a perspectiva teológica o Pontificado de João Paulo II se caracteriza por um esforço de normatização da fé, de mediocrização das inteligências e uma infantilização dos cristãos, convidados a simplesmente se submeterem, sem qualquer crítica, às doutrinas oficiais até em pontos nos quais era legítimo discutir como a questão do celibato e da participação dos desquitados e casados em segundas núpcias nos sacramentos cristãos.

- O senhor afirma que o Para era uma figura profundamente carismática e também profundamente religiosa, e que essas carcaterísticas o ajudaram a operar a contra-reforma que restaurou a disciplina, em oposição ao processo de modernização iniciado nos anos 60. E o que se pode esperar do próximo Pontífice? O senhor acredita que essa tendência irá se aprofundar?

R/ As questões da modernidade, especialmente da justiça mundial, suscitadas pelos níveis de degradação humana e ecológica não se resolvem a golpes de vontade ou por medidas disciplinares mas por um diálogo aberto e responsável com as várias correntes de pensamento da cultura atual. A presença da Igreja no processo de globalização depende de como aceita este desafio. Caso contrário continua como uma realidade do Ocidente, transformada em acidente no processo global. A dificuldade maior é a arrogância institucional de se considerar a melhor religião, a única verdadeira Igreja e a detentora do melhor saber ético sobre os caminhos da humanidade. O futuro Papa deve simplesmente ter mais fé e crer que o Espírito não está amarrado ao Cristianismo, mas atua na história em todas as buscas dos melhores opções. E a Igreja deve mostrar humildade e obediência a esse Espírito e se compôr com todos os que estão empenhados nesta busca.

- O senhor dizia, em meados da década de 80, que a Igreja Católica estava perdendo terreno rapidamente para outras religiões na América Latina, porque nunca esteve ao lado do povo nesta região. E hoje, como o senhor avalia a situação do catolicismo em relação a outros credos nos países latino-americanos e, principalmente, no Brasil?

R/ A Igreja na América Latina sempre esteve encarnada nos meios populares. Daí resultou o vasto fenômeno do catolicismo popular que é uma criação original de nosso Continente que foi o único a ter um Cristianismo colonial. Ocorre que este catolicismo em grande parte era apenas devocional e conformado com a realidade da injustiça social que estigmatiza nossas sociedades. A mudança chegou quando, setores importantes da Igreja, começaram a desenvolver as dimensões éticas e espirituais desta fé popular que favorecia a mobilização contra as injustiças e a favor da libertação. Disso nasceram a Igreja da libertação (feita por milhares de comunidades eclesiais de base, pela leitura popular da Biblia e pelas pastorais sociais) e a teologia da libertação. Como a Igreja Católica em termos de número de padres está muito deficitária, não conseguia atender o crescente número de fiéis. Estes, no vazio institucional, começaram a aderir a outras Igrejas cristãs, especialmente, de natureza carismática. Não vejo este fato como um drama. As outras Igrejas têm direito de estar na sociedade e de apresentar sua versão do cristianismo. O catolicismo talvez não mantenha a hegemonia que tem hoje, mas o importante é que a herança de Jesus, junto com outros caminhos religiosos especialmente da tradição afro, ajudam os brasileiros a manter uma dimensão espiritual da vida e a articulem com a luta pela justiça social, nosso maior desafio histórico.

- O Papa visitou a América Latina no início da década de 80, esteve na Nicarágua e se mostrou contrariado com a participação ativa de padres no governo sandinista. O senhor acredita que essas visitas levaram João Paulo II a tomar uma posições mais contundentes de combate à Teologia da Libertação?

R/ O Papa recebia as informações sobre a teologia da libertação da CIA, já que se haviam estabelecido relações diplomáticas com o Estado do Vaticano, coisa que nunca houve antes. O Papa havia colaborado com Reagan e a CIA na derrubada do Comunismo do Leste europeu. A versão da CIA era de que a teologia da libertação se constituia num instrumento do marxismo para penetrar, como em Cuba, na América Latina. Na Nicaragua,segundo esta interpretação já ocorrera, tal fato, já que a revolução sandinista era de natureza socialista. O que devemos contrapor é que a teologia nunca teve a Marx nem por pai nem por padrinho. Ela nasceu ouvindo o grito dos oprimidos e com a inspiração da fé crista, da maioria do povo latino-americano, organizou a resistência e libertação contra as condições perversas a que estava e continua estando o povo. O Papa nunca entendeu a luta dos cristãos pobres, a partir deles mesmos e de sua fé. Teve uma visão paternalista, no sentido de que a Igreja e as pessoas de boa vontade devem fazer algo de bom para os pobres. A teologia da libertação na esteira de Paulo Freire sempre disse e continua a dizer que os pobres devem ser os sujeitos da libertação. A Igreja e outros devem entram como aliados para reforçar a caminhada decidida pelo próprio povo conscientizado e organizado em seus movimentos. O Papa, na sua interpretação equivocada, queria livrar o povo do perigo do comunismo, sem se dar conta de que o perigo era e continua sendo o capitalismo selvagem e o reacionarismo social de nossas elites. No fim da vida entendeu isso e deixou de condenar a teologia da libertação Chegou a dizer até que não é só útil mas até necessária.

- O senhor deixou a Igreja em 1992 afirmando que continuaria a estudar teologia e aproduzir conhecimento nesse campo, e que também se dedicaria à ecologia. O que tem tomado mais seu tempo nestes últimos 12 anos?

R/ Eu não sai da Igreja. Deixei apenas uma função no seio dela que é a de presbítero. Mas continuei como membro dela, pois isso é uma opção de fé. Nada me impediu que continuasse a ser teólogo, a fazer pesquisa, a continuar a assessorar comunidades e movimentos sociais e a dar aulas de teologia como fiz na universidade de Harvard, Basel, Heidelberg e dentro de pouco em Munique. Como leigo tive a oportunidade de levar a visão cristã a ambientes onde normalmente não chega um teólogo comum. Assim fui membro da comissão internacional da Carta da Terra e ajudei a redigir esse importante documento. Era o único católico lá dentro. A partir dos anos 80 percebi que as questões básicas da humanidade estão ligadas não à Igreja mas à garantia de sobrevivência da Terra e da humanidade, face à sistemática agressão que o modelo depredador e consumista da sociedade, hoje globalizada, está fazendo. Pesquisei e escrevi muito acerca destes temas, também sobre ética e espiritualidade a ponto de receber em Estocolmo como prêmio o Nobel Alternativo para a Paz. A justicativa era que unia estes três eixos importantes a justiça, a ecologia e a espiritualidade. Mas o que venho fazendo é pouco face o que a teologia ou qualquer outro saber deve fazer para termos uma humanidade menos dilacerada pelo horror econômico do mercado e mais capaz de sensibilidade, cuidado, justiça e compaixão.